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Emergência juvenil: suicídio é a terceira causa de morte de pessoas entre 15 e 29 anos


No dia 23 de fevereiro, uma postagem numa página no Facebook com 2.100 curtidas provoca uma pequena onda de desabafos e discussões entre os seguidores. Um fragmento do texto publicado diz: “Tanto suicidas como depressivos sorriem querendo chorar. Vocês acham que é fácil todo dia se levantar e perceber que o dia não vale a pena? Isso é difícil, muito difícil. Não é fácil ter que acordar com um sorriso e dizer ‘estou bem’, sendo que o que você quer dizer mesmo é ‘eu preciso de ajuda’”. Em resposta, leitores comentam: “É assim que eu me sinto”; “estou tudo, só não estou bem”; e “já pensei em suicídio várias vezes, tenho só 13 anos”. Os últimos comentários são de quatro semanas atrás.

Uma investigada nos perfis dos seguidores da comunidade, que funciona como blog pessoal do autor das publicações, mostra que o público é feito principalmente de crianças e adolescentes. Numa página de mesmo conteúdo com 7.715 curtidas, administrada por uma jovem de 18 anos, um apelo comum a todos os blogs que visitamos ganha destaque: “Só me avisa quando tiver interesse em me entender ao invés de ficar me julgando”. Com ares de urgência, um seguidor responde: “Eu, pode falar”.

Na mesma rede social, os grupos fechados, nos quais é preciso pedir autorização para entrar, têm seus murais tomados por pedidos de socorro, histórias de superação, lamentações e, por vezes, pequenas cartas de suicídio, imagens de corpos flagelados e pessoas sempre dispostas a dar um conselho. São tantas mensagens que pedem “alguém para conversar, por favor!” e “me ajudem, quero me matar”, que nem sempre os participantes dão conta. O eventual silêncio faz uma usuária reclamar: “Sou nova aqui, coloquei como me sinto, nem curtiram e nem sequer recebi um ‘oi’, até aqui não sou bem-vinda, só queria alguém para desabafar”.

A psicanalista Soraya Carvalho, coordenadora do Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (Neps), anexo ao Hospital Geral Roberto Santos, explica que, na internet, há um espaço de convivência que nem sempre os mais jovens encontram em casa ou nas escolas. Mas, mesmo que conversar e se sentir acolhido seja importante, grupos e blogs como esses podem se tornar tóxicos – especialmente quando fantasiam e disseminam pensamentos suicidas.

Fotos em preto e branco, um tanto cinematográficas, acompanhadas de frases como “você já amou alguém ao extremo e essa pessoa nem se importava se você estava vivo?”, tão comuns nas redes sociais, podem ser gatilhos para pessoas já fragilizadas, indica Soraya. Na mesma comunidade, uma imagem atormenta. Uma menina segura uma lâmina e o texto diz: “O que os olhos não veem, ninguém julga”. “Se o adolescente tem um contato repetido com fotos de braços cortados, pode acabar se sentindo confortável para fazer o mesmo. E existem também sites que encorajam e ensinam como se suicidar, o que é crime”, diz a psicanalista, referindo-se ao artigo 122 do Código Penal Brasileiro, que prevê prisão de dois a seis anos para quem incita o ato caso ele se consuma, e de um a três anos se a tentativa resultar em lesão corporal grave.

Estetizar a dor, explica a psicanalista, é uma forma de pertencer a um grupo, buscar um sentimento compartilhado. “Muitas vezes o adolescente se automutila – agride ou fere intencionalmente o próprio corpo através de cortes, arranhões, queimaduras, ou tapas, por exemplo – numa tentativa de pertencer a um grupo. Nessa fase, estamos sempre buscando fazer parte de algo, estar numa comunidade. Tem o grupo das patricinhas, dos inteligentes, dos que praticam esportes… e dos que se cortam. Neste, que pode ser virtual ou não, nem todos estão passando por algum problema, mas fazem para se sentir aceitos, porque não se reconheceram ou não foram acolhidos em outro lugar”.

Suicídios acontecem em todo canto da Terra e, a cada ano, mata um milhão de pessoas, o que representa uma morte a cada 40 segundos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o fenômeno, considerado um problema de saúde pública mundial, é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil – a primeira é a violência, seguida por acidentes de trânsito. Segundo a Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab), os índices cresceram em 40% entre os brasileiros nessa faixa etária na última década. “Em números absolutos, essas pessoas são as mais atingidas pelo suicídio. Percentualmente, dentro do universo dos indivíduos com 60 anos ou mais, o crescimento é maior”, analisa Soraya.

De 2011 a 2016, foram registrados 30.075 casos de lesões autoprovocadas e tentativas de suicídio entre jovens de 10 a 19 anos. O número é próximo ao dos que estão entre os 20 e 29: 30.099 registros. Ainda de acordo com a OMS, o Brasil ocupa o 8º lugar no ranking de mortes por suicídio no mundo. Na Bahia, ainda segundo a Sesab, foram contabilizados 3.324 casos entre 2010 e 2017. Neste ano, já foram 114 registros.

E há também, aos montes, os casos nunca registrados. A psiquiatra Sandra Peu, vice-presidente da Associação de Psiquiatras da Bahia (APB) e coordenadora do Setembro Amarelo da ABP, campanha de prevenção ao suicídio, explica: “Nem sempre o suicídio é notificado como tal quando o paciente chega aos hospitais. Pode ser registrado como acidente, mesmo se provocado pela própria pessoa. Até a própria família, por culpa ou vergonha, não assume que foi uma morte autoprovocada. Então, o número total de notificações não é o real, estimamos que é muito maior”.

Regras do grupo

Entre 2h e 9h da manhã, foram 136 mensagens trocadas num grupo no WhatsApp chamado Suicídio e Depressão. “Estou me sentindo um lixo, queria entender por que tenho que passar por isso. Sempre é frescura, ninguém me ajuda”, diz uma menina. “É. Estou sofrendo abusos psicológicos e físicos desde meus 12 anos porque descobriram que eu sou gay”, responde outro, solidário a quem começou o assunto. No grupo Depressão Não É Frescura, as mensagens também não param de chegar: “Como vocês estão, família?”, pergunta uma usuária, provavelmente já sabendo a resposta, quase sempre a mesma: “Mais ou menos, e você?”.

Após uns dias de observação, há de se notar os distintos usos das duas redes. No Facebook, as súplicas são mais urgentes. Frases cheias de exclamações acompanhadas de palavras como “quero me matar agora” e fotos de pessoas cortadas ou entubadas após uma tentativa alarma o usuário desavisado. No aplicativo de mensagens instantâneas, é um pouco diferente: se conversa sobre tudo, desde a crise migratória entre Brasil e Venezuela, trocas de memes (imagens, vídeos ou GIFs de humor) a discussões como: se você fosse um pássaro, qual seria? “O mais feio”, arremata um.

Mas, nos dois casos, as regras das comunidades são cristalinas – principalmente a de número 6 de uma delas: “É proibida a postagem de imagens ou vídeos que incentivem a automutilação ou a prática de suicídio”. Quem descumpre a norma é banido, mas nem sempre a advertência faz efeito naqueles dispostos a compartilhar suas peles rasgadas. Os que insistem nas frases autodepreciativas e pessimistas são encaminhados a uma conversa virtual com um psicólogo e aconselhados a buscar ajuda.

Entre os numerosos mitos que envolvem o tema, Soraya faz questão de enfatizar um: nunca coloque ‘chamar a atenção’, ‘suicídio’ ou ‘automutilação’ na mesma frase. “Muitos pacientes (hoje, são 249) dizem que se machucam para aliviar a angústia no peito. Eles contam não sentir a dor dos cortes, porque a dor da alma é maior. Quem se corta está pedindo ajuda. As outras pessoas não conseguem enxergar o problema que está na cabeça, por isso eles se lesionam e transferem essa doença para o corpo. É uma maneira de deixar a questão visível”. E ela lembra: “Nem sempre quem se mutila quer cometer suicídio. Pode ser um ato que tem como finalidade aliviar o sofrimento psíquico e emocional. Algumas vezes, a automutilação pode estar associada a modos de autopunição”.

Quando se fala em suicídio entre crianças e adolescentes, uma pergunta passa pela cabeça: o que leva pessoas tão jovens a não quererem mais viver? “Nesta fase da vida, as grandes transformações físicas, emocionais e sociais do adolescente abalam a sua identidade e fazem com que ele se depare com questões relativas à sexualidade, ao sentido da amizade, dos estudos, da vida e da morte. Apresentam instabilidade emocional e muita impulsividade, grande fator de risco para o suicídio e a automutilação”, enumera Soraya.

Associando essas questões a doenças como depressão, esquizofrenia e dependência química, explica a psicóloga, o risco é maior. E há ainda outra questão: “Muitas vezes, a depressão ou outras doenças podem ser mascaradas por comportamentos típicos dessa fase, como o isolamento, a tendência a querer quebrar normas… Por isso, muitas famílias não notam o problema”.

“Estou com medo de ir à escola”

Um menino de 16 anos fez um dos grupos no WhatsApp se alvoroçar numa manhã de quarta-feira. Disse que tinha medo de ir à escola porque era chamado de estranho por todo canto que passasse. Não tinha amigos e se sentia excluído. Contou que não tem coragem de procurar a diretoria e que também sofre ataques na internet. Os conselhos são vários: “Não faz isso, por favor, é só um momento ruim”; “não liga para o que eles dizem”; “você precisa falar com a diretoria ou com um professor”. Mas, no final, ele informa – não sairia de casa naquele dia.

Assim como qualquer espaço de convivência, a escola pode ser um lugar hostil, principalmente para aqueles que sofrem abusos e intimidações constantes, o bullying. Segundo pesquisa do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, aplicada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, um em cada dez estudantes brasileiros é vítima frequente de bullying. A situação levou à criação, em 2015, da lei nº 13.185, que obriga escolas e clubes a adotarem medidas de prevenção e combate ao bullying por meio de formação de professores e equipes pedagógicas.

Mas, quando praticado na internet, longe das vistas dos professores e coordenadores, a história se complica. Neste ano, um caso chamou a atenção no colégio Salesiano, no bairro de Nazaré. Provocações que começaram virtualmente entre colegas de 11 e 12 anos chegaram à sala de aula, terminando em briga, xingamentos e acusações. “Nós não temos como controlar o que eles fazem com os celulares, não podemos invadir a privacidade deles. Por isso, sempre conversamos com as famílias e pedimos que monitorem como os filhos estão usando as redes sociais”, diz a psicóloga da escola, Cynthia Tanajura.

No intervalo, Pedro Rufino, 13 anos, conta, um pouco tímido, sobre um conhecido que passou por uma situação assim. “Ele era gordinho, aí fizeram uma montagem com a cabeça dele no corpo de uma baleia. Eu sei que ele sentia bastante por isso, mesmo que não falasse”. Giovanna Brito, 15, ressalta outro tipo provocação, como a relatada naquele grupo do WhatsApp: a exclusão. “Algumas pessoas sempre acabam sobrando, ficam sozinhas na sala, sem amigos. Eu vejo mais esse tipo de bullying indireto, é muito comum”.

A recomendação da escola é procurar a direção de pronto e, para prevenir novas situações, o colégio lançou um projeto, o Escola sem Bullying, da Abrace Programas Preventivos, empresa paranaense especializada na prevenção do bullying, assédio moral e promoção da vida. Desde o início deste ano, cartazes com as “quatro regras contra o bullying” estampam as paredes da instituição. “Também tem uma caixinha em que os estudantes podem fazer denúncias anônimas, o que eu acho muito legal, pode dar mais coragem de falar”, diz o estudante Antônio Figueiredo, 14 anos, um dos porta-vozes do programa na escola.

Uma pesquisa da Kings College, em Londres, afirma que o bullying na infância está intimamente ligado a tentativas de suicídio na vida adulta. Os dados dão conta de que vítimas de abusos na escola ainda consideram se matar mesmo 40 anos depois das agressões.

Um único suicídio, segundo a OMS, afeta diretamente seis pessoas. Quando a vítima é alguém em idade escolar, o luto atinge turmas inteiras. “Os meninos entram em choque, se perguntam o que poderia ter sido feito para evitar, surge uma sensação de culpa. Quando houve aqueles casos em São Paulo, a escola precisou se mobilizar e debater o assunto”, lembra a coordenadora do Neps, em referência ao caso de dois estudantes do colégio Bandeirantes, na capital paulista, que cometeram suicídio num intervalo de 15 dias em abril.

No ano passado, Carolina*, 23 anos, tentou se matar após anos de uma depressão não tratada e o término de um relacionamento. Não morreu porque foi encontrada pela família. Acordou num hospital com poucas lembranças do que tinha acontecido. Diz que, desde pequena, sentia como se tivesse uma pré-disposição à melancolia. “Achava que era normal ser infeliz e sofrer o tempo inteiro com tudo”. Na escola, o bullying era comum. “Eu não tinha paciência para as brincadeiras. Como não reagia, parecia que atiçava mais, mas não tenho dúvidas de que o desprezo dos outros alunos influenciou muito a minha autoestima. Saí do colégio sem perspectiva de vida”. Quem reclamasse dos abusos, conta, ganhava a fama de ‘caguete’. “Virava um inferno”.

Na rede de ensino estadual, a promessa é que o programa Acolher, criado para a formação psicossocial de professores, estudantes e famílias, seja implementado em 27 municípios até dezembro deste ano. O superintendente de educação básica da Secretaria Estadual de Educação, Ney Campello, explica que são recorrentes as histórias de educadores que não sabem o que fazer quando um aluno precisa de ajuda, seja por abusos acontecidos em casa ou na escola. “O professor não tem culpa por não ter recebido essa formação. O primeiro passo é fazer um diagnóstico de quais unidades estão passando por situações como essa e notificar os casos que não estão sendo registrados para que a gente tenha um controle”.

Além da preparação direta com os profissionais da educação, o tema entrará nas disciplinas obrigatórias das escolas. “Ao invés de fazer sempre debates, rodas de conversa, a ideia é discutir o assunto nas aulas de teatro, história… Até na matemática o professor pode dar exemplos envolvendo essas questões da vida real dos estudantes”, afirma Campello. O programa está sendo realizado em parceria com o Conselho Federal de Psicologia (seccional Bahia), Sesab, Ministério Público, Universidade Estadual da Bahia, Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da Bahia e ONGs.

Florescer

Mas não vamos cair no delírio de pensar que a internet – e até mesmo as escolas – é perigosa. Josiana Rocha, voluntária e porta-voz do Centro de Valorização à Vida (CVV) na Bahia, explica que, na urgência, ter alguém com quem conversar é crucial. “Funcionamos 24h por dia, com ligações e chamadas pelo chat de pessoas de todas as idades. O telefone não para”. Nos atendimentos, nota que a solidão e o medo de falar agravam a maioria dos casos. “Muitos ligam e dizem que não têm a quem recorrer, não podem desabafar por causa dos julgamentos, que sofrem em silêncio”. Em julho deste ano, as ligações para o CVV (ligue 188) se tornaram gratuitas para todo o país.

No Neps, a internet também é usada como uma ferramenta de apoio. “Os pacientes têm os nossos contatos e podem falar com a gente a qualquer hora. Assim como os obstetras precisam sair de casa de madrugada para trazer uma vida ao mundo, nós escolhemos trabalhar para manter uma vida no mundo. Para isso, assim como os obstetras, precisamos estar disponíveis”, reitera Soraya. Além de oferecer consultas individuais e terapias de grupo, o Núcleo tem oficinas de produção literária, rodas de leitura e promove a produção de um jornal quinzenal, feito pelos pacientes. Um grupo no WhatsApp, uma página no Facebook e um canal no YouTube são os principais meios de comunicação virtuais.

Sirleia dos Santos, 45 anos, tentou se matar pela primeira vez aos 7. Foi molestada na infância e, sem encontrar soluções para o bullying que sofria, saiu da escola antes de chegar ao ensino médio. As cicatrizes no corpo testemunham que, ao longo da vida, tentou suicídio mais de dez vezes. Hoje, ela assegura estar melhor. “Já me arrumo, tenho mais vontade de viver”, diz, ao mostrar os brincos grandes e cabelos penteados. No Neps, é uma referência para os outros pacientes. “Os psiquiatras diziam que ela não chegaria aos 40, mas veja só!”, celebra Maíra Oliveira, terapeuta ocupacional do núcleo que, ainda este ano, deve se tornar o primeiro Centro de Referência de Estudo e Prevenção do Suicídio do país.

Em cada grupo e página que observamos, até mesmo aqueles que se diziam mais debilitados encontravam uma horinha para ajudar alguém que pedia urgência. Num dos blogs, para afugentar um mar de textos pessimistas que consumiam a linha do tempo, como se para imitar aqueles punhadinhos de mato que crescem no asfalto, uma usuária postou o seguinte texto, junto a uma ilustração de uma menina que segura uma flor: “E, apesar de tudo, girassóis continuam a crescer em minha mente”.

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte

Centro de Valorização da Vida – 188

 

Fonte: A Tarde