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População idosa já soma 2 milhões de pessoas na Bahia

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no fim do ano passado, demonstram que a população de idosos no Brasil e na Bahia não para de crescer. São 26 milhões de pessoas acima dos 60 anos vivendo no país. Destes, mais de 2 milhões residem em terras baianas.

Em Salvador, dezenas de abrigos e asilos ofertam moradia e cuidados para aqueles que são abandonados, ou passam a morar nestes lugares com consentimento da família.

Entre 60 e 95 anos de vida, o legado profissional desta população é inegável: professores, pintores, costureiras, lavradores, chefes de cozinha, empresários, rádio-amadores, economistas, aviadores, secretarias, artistas, e filósofos, dentre outras áreas de atuações, demostram que o abandono não distingue profissão.

Em uma sociedade totalmente capitalista, certa vez, o jornalista e filantropo Benjamin Franklin considerou que “O trabalho dignifica o homem”.

E foi o que aprenderam desde cedo os muitos idosos que relataram suas histórias de significativas contribuições profissionais, e hoje vivem em dois abrigos da capital e Região Metropolitana de Salvador, o Lar Irmão São José, e o ACCABEM- Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes, ambos mantidos através de doações, por meio de sentimentos como a solidariedade e a compaixão.

Vidas cruzadas

Aos 84 anos, Amélia Eulália Rocha diz não ter tido a oportunidade de viver sua fase de infância por precisar trabalhar ainda criança para ajudar sua mãe no sustento da família. Há três anos residindo no Lar Irmão São José, no Bairro de Matatu de Brotas, por mais de vinte anos, ela trabalhou no Ministério da Fazenda de Salvador, onde diz ter feito amizades que leva consigo e que a visitam no abrigo até hoje.

Não por acaso, o quarto que divide com Berenilza Ramos dos Santos, de 77 anos, ex – babá, é repleto de brinquedos e bonecas, que as ajudam a distrair, e as fazem sorrir, em meio a solidão.

A filosofia e o universo da leitura é o que alegra a vida do filósofo e ex-contador Antônio Carlos de Oliveira aos 80 anos. Há dezoito anos, após graves problemas de saúde, ele vive acamado no Lar Irmão São José. Mas se engana quem pensa que as difíceis condições em que vive hoje, o tornam uma pessoa triste. Ao contrário, nos inúmeros livros de romances e filosofia, presentes na cabeceira da cama, ele diz encontrar a alegria e motivação para sorrir.

Desde então, foram mais de mil obras lidas, de autores como Jorge Amado e Zélia Gattai, além de diversos filósofos. Apesar de ter atuado na área de contabilidade por vários anos, foi ao estudar filosofia na Universidade Federal da Bahia (UFBA) que ele encontrou a sua verdadeira paixão profissional.

Diz sentir falta de jogar futebol e de torcer para o seu time do coração, o Botafogo da Bahia, mas através da leitura consegue vivenciar no campo da imaginação as suas maiores saudades. Modesto, ao ser perguntado sobre qual sua citação filosófica preferida, ele não pensou duas vezes: “Só sei que nada sei”, de Sócrates (470 a.C.- 399 a.C.).

Planejamento

Ivone de Araújo Pinto, 67, foi professora primária e hoje lamenta não ter planejado melhor sua velhice. Há um ano e meio no abrigo, ela afirma que a necessidade falou mais alto por não haver quem a cuidasse. A aposentadoria que recebe, segundo contou, não é suficiente para pagar os custos com remédios e outras necessidades. “É muito importante guardar parte do dinheiro para planejar este momento que chega para todos”

Formado em Economia pela UFBA, Alcides Mascarenhas, hoje com 68 anos, atuou na profissão e passou por importantes empresas do ramo. Economizar para garantir uma velhice menos difícil e mais segura foi a opção que encontrou para vivenciar a fase com maior tranquilidade. Ele passa períodos no abrigo e diz que costuma alertar os mais jovens sobre esta questão vivenciada na pele. “Consegui juntar dinheiro por pensar nesta fase que sabia que poderia chegar e, hoje, consigo viajar, cuidar de mim e ainda ajudo minha família, levando uma vida mais tranquila e sem maiores problemas”, pontua.

Sobre esta questão, o presidente da ACCABEM diz que a falta de dinheiro prejudica em muito “a melhor idade. “Quando estamos jovens, fisicamente bonitos, com dinheiro, nós não pensamos no futuro, que um dia chegaremos a ser idosos, e precisaremos de uma economia para inúmeras necessidades. O jovem de hoje deve pensar no futuro.

Amigos compartilham tempo em partida de dominó | Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDEAmigos compartilham tempo em partida de dominó | Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Ressocialização

Conforme explicou a técnica de enfermagem, Jandaíra Mendes, no Lar Irmão São José, vivem atualmente cerca de 30 idosos. Muitos deles ou foram abandonados pela família, ou são os últimos membros vivos.

Alguns chegaram por conta própria e contribuem financeiramente com a aposentadoria que recebem, após o exercício das profissões, até precisarem de cuidados especiais, mas a maior parte reside no abrigo meio de doações. Aluns, há mais de dez anos.

“Muitas pessoas os trazem pra cá e os abandonam. A grande maioria, foram desamparados, largados e, graças às campanhas para doações de leite, agasalhos, alimentos, fraudas, conseguimos oferecer o mínimo de dignidade para eles”, relata.

Uma área de 7 mil e duzentos metros quadrados, que foi doada para a Associação Casa de Caridade Adolfo Bezerra de Menezes (ACCABEM), já chegou a abrigar 100 idosos em situações de abandono, doenças, e desamparo, no bairro de Itinga, em Lauro de Freitas.

Hoje, 87 pessoas, além de 115 crianças amparadas pela creche, presente no mesmo local, contam com os cuidados médicos de profissionais de diversas áreas da saúde, além de atenção, amor e carinho por parte de voluntários.

São trinta anos de existência na atividade de amparo aos idosos. Muitos destes vieram das ruas, são ex-usuários de drogas, como o álcool, e são reeducados através da doutrina espírita e evangelização, conforme explicou o presidente da ACCABEM, Adalberto João Teixeira.

Sobrevivendo através de doações, outros 80 idosos vão semanalmente a fundação para participarem da evangelização, e socializarem com os residentes fixos. São dezenas de histórias convivendo juntas, e experiências profissionais das mais diversas áreas de relevância social.

 

Fonte: A Tarde